Bienal: óbvia, equivocada e banal
Não fosse o tão belo cenário criado por Oscar Niemeyer a Bienal deste ano não seria mais do que um encontro (mal-sucedido) de amigos.
Aliás, seria mais próprio dizer que hoje em dia a Bienal não passa de uma ação entre amigos para que o fundo mantenedor pagante continue irrigando (parcamente) as contas bancárias dos amigos participantes.
É óbvio dizer que o circuito de arte seja assim.
Seria menos óbvio, daria mais trabalho e criaria mais discussão se a Bienal deixasse de ser… bienal. Não faz mais sentido algum uma mostra que demora dois anos para fazer/formar/informar o panorama da arte e tentar indicar uma tendência. Hoje em dia, mais do que nunca, as coisas mudam de 6 em 6 meses. Não saber ou não considerar isso é uma visão no minimo medieval. A Bienal faria bem a si mesmo se fosse no mínimo Anual. A Bienal em verdade deveria ser Cotidiana para realmente se alinhar com o mundo atual.
Equivocada: bom isso é bater em cachorro magro. Um andar vazio para questionar o vazio… ah, sinceramente, acho que eu já vi isso em algum lugar… tipo meu trabalho de faculdade do primeiro semestre. Ou o exercício de alguma idéia de um artista mediano lá na década de 30. Ou um diretor de teatro nos anos 70 querendo inovar na sua cenografia-vazio. Que digam os mais velhos: na década de 80 qualquer artista/cineasta cocainômano teria uma idéia muito melhor do que esse “vazio-bienal”.
Ainda fiquei pensando: será que eles queriam refletir o vazio do entretenimento cultural pelo que passa São Paulo? Afinal quase todos os grandes eventos/festivais da cidade foram um fiasco nesse ano que termina.
Não é pq a arte tem o dever de se comunicar com todos que necessita ser óbvia ao extremo. Deve ter o elemento surpresa, deve conter o debate, deve ser desvendada. E não ser uma piada infâme mal contada pela quinta vez. Andar vazio? Vazio é esse seu conceito dona Bienal.
E o artista pelado? Serviria de performance no saguão da ONU. Ou numa abertura de reuniões do G8. Aliás, pessoas protestando contra peles de animais, ou contra o derramamento de óleo já fizeram o mesmo. Ou aqueles ciclistas barceloneses que o fazem todo ano. Ficar pelado pela arte é óbvio sim, é pouco, e me soa piegas/aproveitador de mídia.
Mas continuando com o equivoco: a única ação que expressava emoção e para a qual o “andar vazio da Bienal” parece ter sido feito sob medida - aquela pixação feita logo nos primeiros dias - foi reprimida, e ainda mantém uma mulher presa.
Realmente foi a única performance digna de sucesso, e como a vida imita a arte, todas as instituições presentes reprimem e mantém (INJUSTAMENTE) presa a única artista de destaque dessa balbúrdia equivocada: aquela pixadora de nome Pivetta. Sim, me lembra o caso do Pixote - o pivete que foi morto pela polícia em filme e na vida real. “Mataram” a artista e a arte-questionamento que ela produziu. Mais do que isso, mataram o único questionamento inteligente que os corredores modernistas de Niemeyer tiveram nessa edição (mesquinha) da Bienal. Realmente dona Bienal, vc confirmou aquilo que muitos dizem: a arte que vc (deseja) representar é elitista, para poucos, para o seu “grupo de amigos”.
Caso o leitor conservador de plantão, pagador de impostos, dedicado a sua Família-Trabalho-Tradição ainda questione meus argumentos, vou além eu digo mais: o único crime cometido pelos pixadores naquele dia foi quebrar uma vidraça. E isso poderia ter sido resolvido, fazendo-os pagar pela tal vidraça - seja com dinheiro, seja com serviço comunitário. Mais ainda: o maior crime mesmo foi o que essa Bienal insossa fez, desrespeitando a nossa inteligência e a beleza do prédio de Oscar Niemeyer.
E de tão cheia de coisas ruins, de obras fracas e discussões já levantadas na época de faculdade / cursinho de tantos, a Bienal é banal. Tão forte é esse sentimento que parece que o escorregador-obra é uma tentativa de dizer: “Ok, se vc se frustrou lhe oferecemos um serviço me-tira-daqui-o-mais-rápido-possível-por-favor. É simples: escorregue por aqui e esteja rapidinho fora desse fiasco. Desculpe-nos o inconveniente. Assinado a Diretoria”.
Vá te catar Bienal!
//vj.spetto//
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